Historinha criada a quatro mãos por Natasha e Daud durante momento de tédio causado pela chuva de ontem.
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O Martelo do Sr. Capote
O Martelo do Sr. Capote era de uma espécie inigualável. Sua pesada e nobre pedra propiciava uma batida abafada e seu som podia ser escutado a léguas de distância…
(Pergunta: como pode ser o som abafado escutado a léguas de distância?)
(Resposta: O Martelo do Sr. Capote era de uma espécie inigualável)
(Comentário: Ahhhhh…!)
Ele vivia num vilarejo muito, muito distante, onde não se via viv’alma a quilômetros dali. Certa vez, enquanto exercia sua labuta diária em sua choupana, eis que o Sr. Capote escuta um grito aterrorizante que fez gelar sua espinha. Era um grito feminino que clamava por socorro.

Choupana do Sr. Capote
Como sofria de um problema na coluna há anos (devido ao seu trabalho braçal), se levantar do seu sofá —onde descansava um pouco antes de voltar a martelar— e correr para porta não era uma tarefa das mais fáceis. Foi necessário um bocado de segundos para que conseguisse sair do lugar e alcançar a porta e, quando a abriu, pôde sentir uma lufada de vento percorrer grosseiramente seu rosto.
Do momento em que Capote ouviu o grito aterrorizante até conseguir chegar à porta o dia virou noite e, lá fora, podia-se ouvir o uivo dos lobos que saudavam a lua. Com a porta aberta e as bochechas rosadas por conta do frio, Capote vasculhava com os olhos semicerrados o que ou quem produzira tal grito. Levemente trêmulo, esgueirou-se para fora de casa, avançando campo adentro, tentando enxergar no escuro com seu chaveiro de lanterna. O vento soprava incessantemente.
Enquanto suas solas avançavam sobre os campos regados de orvalho que a chuva vespertina havia reservado, seu coração palpitava insaciavelmente. Aquele grito não era estranho, não mesmo, e se pertencesse a quem ele imaginava pertencer, ele não temeria enfrentar o maior dos seus medos.
Ao dobrar uma árvore retorcida e se assustar com o “crul” de uma coruja pestilenta, Capote, munido de sua lanterna e seu martelo de uma espécie inigualável, alcançou o ser que berrava sem parar e constatou que se tratava do maior de seus medos: Laura, uma garota da cidade grande que volta e meia ia até a floresta espionar as atividades do sr. Capote. Desta vez, no entanto, ela fora pega de surpresa por uma armadilha montada pelo velho introspectivo.
Seus olhares se cruzaram, ela o fitava com um olhar desolador e implorador que tentava rastrear algum sinal de clemência no velho. Ele, por sua vez, não se comoveu. Dobrou-se pra próximo dela e se sentou sobre um mix de arbustos, orvalho, folhas secas e insetos. Suas nádegas sentiram uma pincelada de desconforto o que, para alguém da sua idade, já seria motivo para mudar de posição. Mas, naquele momento, o seu prazer de vê-la agonizando havia negligenciado o incômodo. Sacou um maço velho de cigarro, pousou sobre seus lábios e segundos depois, havia apenas fumaça circulando seu rosto.
Capote fitava o tornozelo ensaguentado de Laura com um olhar blasé, ignorando os choramingos da garota, que, assustada, esperava por um destino infeliz. Fumando vagarosamente seu cigarrinho de palha, o homem soprava zombeteiramente a fumaça no rosto da menina. Após alguns minutos assim, o velho deu um peteleco na bituca, pigarreou sonoramente e, apoiado nos próprios joelhos, aproximou-se ainda mais de Laura. Daí, iniciou-se um diálogo:
— Sim, sou um velho chato, rabugento, fedorento, sedentário, apático, socialista e tudo mais que você deve pensar de mim.
— Não, claro que não. Por favor, me liberte. Não estou passando bem.
— Cale-se. O único som que desejo escutar são seus grunhidos de dor.
Enquanto fala, Sr. Capote desliza seus dedos sobre O Martelo inigualável. Subitamente, ele o agarra ameaçadoramente e investe a ferramenta na direção de Laura que grita a plenos pulmões:
“Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!”.
PIMBA!
Sr. Capote quebra a armadilha que prendia o tornozelo da menina. Surpresa com o ato benevolente do velho, ela agradece. “Não me agradeça, lembra o que os militares diziam sobre os socialistas comerem criancinhas?”, perguntou ele com um olhar ensandecido. “Sim, lembro”, ela respondeu. “Era verdade” e abriu um sorrido demoníaco que deixava aparente uma arcada dentária impecável, com dentes brancos e bem alinhados. “Uau!”, pensou a menina, considerando que o velho Capote não deveria ser tão ruim. Assim, Capote carregou Laura para sua choupana no meio do mato, onde, pensou, ele a faria gritar de verdade.
FIM.